Antes de começar a postagem de hoje, me antecipo em pedir desculpas pela falta de elegância no parágrafo a seguir. É que o tema me obriga a deixar o "rapapé" pra lá. Deixo claro também que esse post não tem endereço certo. No entanto, se a carapuça for do seu número, vista e faça bom proveito. Procure com isso reavaliar suas ações e tornar-se mais digno da consideração e do afeto que lhes foram dispensados inutilmente.
Não existe ditado mais otimista do que esse: "Até um pé na bunda te faz andar em frente". Dureza é se inserir nesse contexto entrando com a bunda. Alívio é saber que mesmo com a bunda (e a alma) dolorida, quem vai pra frente é você. Quem deu o pé, certamente vai ficar paradinho, sempre no mesmo lugar, só observando.
Minha acidez se explica: ultimamente tenho visto com freqüência estarrecedora muita gente decepcionada com relacionamentos de toda espécie. A mágoa, em geral, chega via Internet e deve-se ao sumiço repentino de supostos namorados ou amigos, bloqueios, exclusões, rejeições veladas...
A gente não se dá conta, mas a Internet inaugurou um sentido mais amplo para a vida e, por isso mesmo, mais complexo. Hoje vivemos o que é chamado de simultaneidade dinâmica no seu aspecto mais real. Só que pra entender esse processo e usufruir bem dele é necessário ter a mente aberta e estar convicto de que a vida virtual acontece no paralelo, mas em algumas ocasiões se conecta à vida real. Daí que sexo, namoro, amizade ou qualquer outra espécie de interação na virtualidade tem a mesma intensidade e gera iguais possibilidades que na vida real. E daí também é que o sofrimento com uma perda é verdadeiro, dói intensamente e deixa marcas, senão eternas, pelo menos durante um bom tempo.
A triste conseqüência disso é o surgimento de um ceticismo tamanho, que diante de novas possibilidades você já enxerga o pacote completo: brigas, desconfiança, ciúme, dificuldades de conciliar o relacionamento com a vida cotidiana, alterações de humor, dependência emocional e por aí afora. Um recolhimento começa a ser vislumbrado com prazer, afinal a vida é tão mais tranqüila sem tudo isso!
O mais engraçado é que todas as histórias que tenho ouvido são compostas pelos mesmos ingredientes. No início a empolgação não impõe limites pra nada. A disponibilidade do outro é total. Troca de olhares apaixonados, mil mensagens, telefonemas, encontros e promessas de um final feliz (que aliás nem passou pela sua cabeça e você recebe até com uma certa estranheza): casamento, filhos, casinha no campo e um monte de labradores... Depois de pouquíssimas noites de sono, a mudança é radical. O tempo torna-se escasso, milhões de impedimentos começam a surgir, a comunicação vai ficando rara. Isso, é óbvio, quando você está sendo cozido em fogo brando. Há casos, porém, em que a interrupção é brusca e o sumiço total acontece do nada.
O fato inequívoco, no entanto, é uma constatação cruel: em qualquer caso, o prazo de validade venceu. Nem tente entender porque. O problema necessariamente não é você. Isso fatalmente acontece porque o encantamento proporcionado pela conquista consumada simplesmente acabou. E não adianta tentar me convencer do contrário, porque quem se importa com a outra pessoa age com honestidade e correção, chova ou faça sol.
Se você parar por um instante e refletir bem, vai perceber que convenientemente desconsiderou sinais que indicavam a falta de futuro na relação e permitiu que o desgaste se instalasse à sua revelia. Isso, no entanto, jamais justifica a postura covarde de quem não assume o desinteresse. É tão mais simples dizer a verdade, afinal, ninguém é obrigado a conviver com quem não quer e de maneira que não lhe agrada. Pior ainda é quando esse comportamento lamentável parte de homens ou mulheres supostamente maduros, dos quais se espera naturalmente uma habilidade mínima em lidar com questões delicadas.
De fato, como Jean-Paul Sartre sabiamente predisse, o inferno são os outros. Quem sabe a fórmula de se relacionar de acordo com o que dá na veneta, conforme determinadas pessoas fazem, não seja a ideal? Seria interessante viver uma vida onde ninguém, absolutamente ninguém, poderia se relacionar comigo quando eu não quisesse. Seria impossível alguém infernizar minha vida, a não ser que lhe entregasse uma senha e, mais importante, pudesse desligá-lo da tela quando bem entendesse. É, seria legal... Mas não seria humano.
Diante disso, acredito que há apenas dois caminhos a serem seguidos, ambos, porém, igualmente sofridos:
. Continuar investindo na relação, que dependendo do esforço empregado por você, pode até ser restabelecida. Só que fatalmente não será mais a mesma em função da mágoa anteriormente vivida e você ficará na eterna e inevitável perspectiva de voltar a passar pela mesma decepção a qualquer instante. Em resumo, muito prazer (será?) e nenhum sossego (com certeza!);
. Contrariar temporariamente seus desejos e encerrar essa etapa, pensando em novas possibilidades, se relacionando com outras pessoas, levando a vida em frente. Vai doer, sem dúvida. Ninguém em sã consciência opta tranqüilamente por encerrar aquilo que ilusoriamente considerava tão bom. Mas o que faz a gente sofrer tanto, ainda que seja por um segundo, não é bom de verdade. No caso de optar por esquecer, uma coisa é líquida e certa: o sofrimento é grande, mas um dia passa.
Mas é claro que o mundo não é totalmente cinza. Há que se considerar que muitos relacionamentos, tanto reais quanto virtuais permanecem, porque há inúmeras afinidades e existe um bem-querer verdadeiro. Assim, mesmo com eventuais sumiços, podem ser reatados e até mesmo vividos mais satisfatoriamente depois de uma experiência amarga.
O importante, sempre, é dar tempo ao tempo e se ocupar de coisas que lhe proporcionem prazer. Ficar dia e noite remoendo uma tristeza não ajuda em nada, o mundo vai continuar girando do mesmo jeitinho, nada vai mudar por causa disso. Seja qual for o desfecho, o fundamental é buscar incansavelmente ser feliz, sempre!