Se tem uma coisa que está ficando linda na nossa nova casa é a cozinha. Não é grande, nem tão pequena, e ficou modernosa, bem equipadinha.
Aí o japa, outro dia, incomodado com meus cuidados extremos na decoração desse espaço, tripudiou:
- Não sei pra que tanta preocupação, você não cozinha mesmo!
Hum, me ferveu o sangue!... Calúnia! Injúria! Difamação!!! Uma vez por semana tô lá, firme (não?) e forte (não também?...) na beirada do fogão. E quem vê o rapaz há de concordar comigo: aquela barriguinha coberta por camisa no melhor estilo "o defunto era menor" comprova que ele está a anos-luz da inanição.
Mas quer saber de uma coisa? É isso aí mesmo, ODEIO COZINHAR!!!
Às vezes até me empolgo e começo bem, mas antes mesmo de chegar à metade do preparado já me sinto bem arrependida. Começa pelos odores. Caramba, alho e cebola impregnam até na aura do meu ser! Gordura, então... Fico mais besuntada do que mulata de escola de samba (opa, nada de achar que tô dizendo que mulata de escola de samba é gordurenta, tá? É só por causa daquele óleo que usa pra ficar brilhosa e munita).
Coisa horrível de fazer é saladinha de folhas, especialmente de agrião e rúcula. Meu Deus do céu, o que que é aquilo? Talo, talo e mais talo. Você lava um saco de 50 kg pra sobrar meia dúzia de folhinhas tenras na saladeira. Por isso é que sou a maior adepta da "feira limpa" (se bem que não confio muito nas verduras que já vêm lavadas e embaladas).
E massa (de sovar), então? A gente enfia as mãos na molengueira toda e aquilo gruda num tanto, que a situação fica irremediável. Não dá pra pegar o saco de farinha, impossível abrir a torneira e limpar a porcalhada, a pessoa perde o rumo!... Tsc. Inviável. Muito inviável.
Assado é sinônimo de escravidão. Você bota a coisa no forno e não pode nem piscar mais. Encontrar o ponto exato é problema de física quântica, tamanha a complexidade da ação. Diante dos seus olhos a coisa desanda, é um absurdo. Passa o maior tempão e o treco continua cru. Mas experimente virar as costas por um segundo e veja o que acontece. Não é possível, na minha cozinha tem um saci-pererê que se arrebenta de rir dos meus desastres culinários, só pode!
Isso tudo sem contar a trabalheira que dá deixar tudo em ordem, antes (sou daquelas que só cozinham se houver uma separação prévia de ingredientes), durante (também sou daquelas que vão lavando toda a louça enquanto cozinham) e depois (não suporto cozinha bagunçada).
E sabe o que é realmente muito estranho? É que mesmo fazendo com tanta má vontade, minha comida, por incrível que pareça, é boa. Faço um feijão sensacional, modéstia à parte.
Não me orgulho de ser assim não. Penso que comida é algo que exige carinho e dedicação no preparo, afinal, essa é uma energia que a gente manda pra dentro, né? Isso me lembrou, inclusive, de um filme mexicano que adoro, "Como Água para Chocolate", onde a protagonista Tita transfere para os alimentos que prepara - e consequentemente para quem os come - todas as suas emoções. Filme lindíssimo, vale a pena ver.
Mas o que se há de fazer? Como diz minha amiga Rose, do topo de sua sabedoria tibetana, "a pessoa é para o que nasce" (título de outro filme, brasileiro, bem bacana também). E definitivamente não nasci para ser sequer uma simples cozinheira, quanto menos uma chef lapidada no Le Cordon Bleu de Parri. Ulalaaaa!
Ilustração: Tiago Hoisel (espetacular!)



