segunda-feira, 28 de abril de 2008

Encontros, desencontros e reencontros...

No último sábado vivi uma grande alegria ao reencontrar pessoas muito queridas, numa reunião promovida dentro da própria escola onde passamos nossos primeiros anos de convívio social. Alguns não se viam há 34 anos, porque a vida é assim mesmo, se encarrega de juntar pessoas, de separá-las e de fazer com que um dia possam se reencontrar.

A emoção de pisar novamente na escola e reviver bons tempos foi indescritível. Que delícia trazer à tona uma fase da minha vida em que meus pequenos problemas logo eram resolvidos ao retornar pra casa e encontrar meus pais, que a vida também tratou de separar de mim... Ouvir histórias daquela época, relembrar momentos tão felizes, enfim, tudo me deu a nítida impressão de nunca ter saído de lá, nem deixado de conviver com aquelas pessoas.

Sem dúvida essas décadas se encarregaram de mudar bastante as aparências físicas de alguns, o que se tornou insignificante ao reencontrar nos olhos e sorrisos de cada um aquelas mesmas crianças que estiveram unidas por tanto tempo. Puxa, crescemos juntos... Chegamos bem pertinho da vida adulta nos encontrando todos os dias, durante anos. De repente, tudo estava ali novamente: as primeiras conquistas, a primeira dança, o primeiro beijo...

Na trajetória até aqui todos vivemos muitas alegrias e tragédias pessoais não partilhadas com quem nos acompanhou da infância à adolescência. Cada um tomou seu rumo, encontrou novos amigos, adquiriu novos interesses. Mas teremos pela vida afora as mesmas lembranças felizes, que jamais serão apagadas e estarão eternamente guardadas num cantinho muito especial dos nossos corações.

Que bom ter estado com vocês, Luzia, Mariangela, Ideli, Braghetto, Douglas, Miquelin, Queijo, Jean, Marcos, Beto, Ciconello, Carlos Fini, Damélio, Adelaide, Adélia, Silvio, Sara Romão e professora Marlene... Espero revê-los em breve.

E que maravilha é ter reencontrado há alguns meses e poder continuar caminhando ao lado de amigas com quem posso falar sobre tudo e sobre nada, rir de doer a barriga, chorar de ficar desidratada e saber que são pessoas com as quais realmente posso contar nesse mundão: Cilmara, Joana, Vera, Miriam, Sara e Cibele, irmãs que a vida trouxe pra mim.

Tenho certeza de que eu era feliz e sabia disso... E que maravilha é reviver essa felicidade, principalmente agora que sei mais de mim, das pessoas e da vida.

sexta-feira, 25 de abril de 2008

Confiança

"A confiança é um ato de fé e esta dispensa raciocínio." (Carlos Drummond de Andrade)

Às vezes me sinto muito mal por confiar demais nas pessoas, acreditar que por trás de atitudes duvidosas sempre há uma boa justificativa. Quando surge a decepção, tento procurar a lógica da situação, entender o porquê de me deixar levar "no bico" com tanta freqüência. Mas a citação de Drummond é perfeita, afinal, confiar é mesmo um ato de fé, de não se contaminar pelas más intenções alheias. Não há como ser racional em relação a isso, porque essa é uma questão de sentimentos.

Sou o tipo de pessoa que costuma falar o que sente e pensa. Nem sempre agir assim é fácil. Há horas em que eu preferiria ficar calada, apenas para ter a certeza de quanto o outro é confiável ou não. Infelizmente por sempre abrir o jogo nas relações que eu prezo, em muitos momentos me decepcionei e deixei de confiar. Há pessoas que são estratégicas e esperam o tempo certo para que o outro se enforque com a própria corda, demonstrando absoluta incoerência entre palavras e ações. Eu não tenho esta paciência, pois valorizo o tempo que disponibilizo para uma pessoa. Prefiro sempre optar pelo caminho de ser confiável com aqueles que me relaciono e que não gostaria de perder por qualquer deslize da minha parte.

Jogo duplo, para mim, é imperdoável. Por isso não consigo entender o fato de alguém, por exemplo, não gostar de uma pessoa e conseguir comparecer ao aniversário da mesma. Aniversário não é obrigação, é celebração, homenagem a alguém querido. Nunca utilizaria como desculpa um fator externo para esconder, apagar, mascarar um desejo pessoal. Os outros não têm nada a ver com meus instintos pessoais. Como o tal de senso de preservação das pessoas já foi por água abaixo, que pelo menos sejam honestas com quem lhes confiou a palavra. Isso eu serei sempre. É a síntese do que eu considero honestidade. Desejos pessoais às vezes esbarram na liberdade alheia. É quando a honestidade fala mais alto. E o pior tipo de desonestidade é o jogo duplo, a falsidade em estado bruto.

Portanto, vergonha não é confiar, é ser falso. É bater nas costas de uma pessoa que você não gosta. Aliás, sempre desconfie de recados que chegam mais entusiasmados do que o normal, do tipo “AMIGOOOOOOOOO” ou “SAUDADEEEEEE”. Saudade se mata, desde que se esteja perto. Sempre se dá um jeito de matar a saudade, seja se encontrando, seja escrevendo, se interessando pelo outro de verdade. Amigos não se tratam o tempo todo por “AMIGOOOOOOOOO”. Amigos se tratam com naturalidade, numa confiança mútua conquistada ao longo do tempo e com provas de risco que pudessem ter comprometido esta amizade, mas foram atravessadas apesar de qualquer fator externo que possa ter surgido.

Eu não agüento mais o muro. É por isso que ando adotando essa prática de falar tudo o que eu penso a respeito de todo mundo. Só me chateia a sensação de decepção. É violenta. Porém, é um incentivo para seguir em frente e me fortalecer de novo. E não adianta, quem pisou na bola, só me provando o contrário vai ter de volta o meu abraço. Um pedido de desculpas não me basta mais. É necessária a ação. Enquanto isso, eu contrario quem diz: “Eu é que não digo mais nada”. É o que eu tinha vontade de fazer, mas se alguém se cala, como que a gente fica? Eu não me calo, eu falo e não tolero.

quarta-feira, 23 de abril de 2008

Certo ou errado?

Quando comecei minha terapia há alguns anos atrás por causa de uma depressão severa, logo de cara entendi algo que passou a ser uma nova maneira de pensar para mim e procuro aplicar no meu dia-a-dia. Tentando demonstrar minha boa vontade e disposição em absorver o máximo que o tratamento poderia me proporcionar, fui logo dizendo à psicóloga: "Não posso continuar assim, tenho que melhorar". Fui imediatamente interrompida: "Você tem ou quer?".

A diferença entre "ter que" alguma coisa e querer algo é gigantesca. No caso do meu tratamento, "ter que melhorar" significava fazer isso por obrigação, porque o "certo" seria não estar deprimida, era o que todos esperavam de mim. Mas querer melhorar significava fazer isso por mim mesma. Vi que até aquele momento eu estava apontando o dedo na minha própria direção, me cobrando um comportamento que estaria dentro do que se convencionou ser o mais certo.

Aprendi com isso que ninguém "tem que" coisa nenhuma. Afinal, quando se diz que alguém tem que fazer algo, é porque acreditamos estar indicando o caminho que consideramos o correto. Mas afinal, o que é certo e o que é errado? Parece óbvio e aceitável que aquilo que é certo para mim pode não ser para os outros. O que acredito ser o bem e a verdade, para outra pessoa pode significar exatamente o contrário, a negação de tudo, a antítese.

Insistir em estabelecer um conceito como absoluto é ser maniqueísta. O maniqueísmo é uma forma de pensar simplista em que o mundo é visto como que dividido em dois: o do bem e o do mal. A simplificação é uma forma primária do pensamento que reduz os fenômenos humanos a uma relação de causa e efeito, certo e errado, isso ou aquilo, é ou não é. A simplificação é entendida como forma deficiente de pensar, nasce da intolerância ou desconhecimento em relação a verdade do outro e da pressa de entender e reagir ao que lhe apresenta como complexo.

Conceitos de certo e errado são relativos e bem individuais. Numa aula de filosofia, por exemplo, o professor me surpreendeu com a pergunta: "Você mataria uma pessoa?". Ao que imediatamente respondi: "Claro que não!". Ele quis saber porquê e esclareci que isso não era certo. "Por que não é certo?", questionou o professor. Respondi o óbvio: "Oras, porque isso é um crime". A partir daí ele nos fez pensar que o assassinato, por exemplo, é considerado um crime porque assim determina a lei. E a lei foi formulada por alguém que considerou que essa é a verdade, determinando, portanto, o comportamento "certo". Leis, em geral, são formuladas com base em interesses específicos, que ditam formas de agir de acordo com as conveniências de quem as criou. Sem dúvida viver sem elas seria impossível, uma anarquia social insuportável. Tudo isto nos leva a considerar que há dois níveis de certo e errado e de bem e de mal: o nível dos costumes e das leis, ou seja o nível das convenções; e o nível da ética. Por isso acredito que a melhor resposta que eu poderia ter dado ao professor naquele dia é a mais simples e verdadeira para mim: não mataria outra pessoa porque reconheço que a vida dela é importante, tal como a minha.

Enfim, acho que acima de convenções e da moralidade, o limite entre o certo e do errado está no bom senso, em procurar dizer ou fazer coisas que mesmo absurdas aos olhos alheios nos satisfaçam plenamente, mas que, ao mesmo tempo, não causem prejuízo a ninguém.

sábado, 19 de abril de 2008

Barbárie contemporânea

Qualquer pessoa minimamente sensível ficou chocada com o caso de Isabella Nardoni, não há dúvida de que a brutalidade do crime tocou até mesmo os corações mais endurecidos.

Mas além do fato em si, o que me deixa absurdamente perplexa é o comportamento da população diante dos acontecimentos. É com indignação que venho acompanhando o movimento da massa acéfala, dia após dia. É por isso que preciso voltar a esse assunto.

O que levou mais de 300 pessoas, num dia útil, a passar dia e noite em frente à delegacia onde os suspeitos foram interrogados? Entre essas pessoas, segundo a Folha de São Paulo, estava, por exemplo, um morador de Cuiabá, que dirigiu 12 horas seguidas apenas para se juntar à massa, que organizava-se em coro: "Pega lá, pega lá, pega lá... o casal pra nóis linchá (sic)". Pedras foram arremessadas, um bolo de aniversário surgiu no meio da confusão para que ridiculamente fosse entoado um "Parabéns a Você" em homenagem ao aniversário da menina que teria acontecido ontem, planos de vingança foram cuidadosamente elaborados: "Eu mesma quero asfixiá-lo e depois pisar no pescoço dele quando estiver caído", dizia uma mulher de 43 anos. "Sai da frente porque eu quero cuspir na cara desse homem", gritou uma adolescente, tentando ultrapassar a barreira policial.

Isso tudo dirigido a um casal que ainda nem foi julgado e respingando cruelmente sobre as famílias de ambos. Mesmo que todos os indícios apontem para a culpa dos supeitos, nos cabe apenas aguardar os resultados da investigação e esperar que a justiça seja feita de acordo com os trâmites legais.

Essa barbárie contemporânea me remeteu ao século XIII, aos sangrentos tempos da inquisição, onde a execução em praça pública era um espetáculo disputado e apreciado pela turba enfurecida. Imaginava que este havia sido o período mais obscuro da humanidade, o auge da hipocrisia em nome da justiça e da religião.

Parei ainda para refletir sobre o que aconteceria a Jesus Cristo nos tempos atuais. O flagelo sofrido por ele e a crucificação nem chegariam a acontecer, já que certamente o povo se encarregaria da imolação por conta própria e com satisfação.

Infelizmente os efeitos dessa cultura de massa já pode ser visto ao redor do globo. A total falta de respeito pelo próximo, além da ausência de visão analítica e crítica torna as pessoas cada vez mais suscetíveis às armadilhas da mídia.

A grande pergunta que fica é se existe uma forma de reverter esse quadro pessimista e alarmante. Acho que a resposta está no próprio mecanismo que leva a esse comportamento deplorável. A mídia bem que poderia começar a trilhar o caminho inverso, reeducando as massas, resgatando valores já esquecidos e criando uma consciência coletiva de respeito e justiça.