segunda-feira, 27 de junho de 2011

Despedida...


LÁGRIMAS OCULTAS
(Florbela Espanca)

Se me ponho a cismar em outras eras
Em que ri e cantei, em que era querida,
Parece-me que foi noutras esferas,
Parece-me que foi numa outra vida...

E a minha triste boca dolorida
Que dantes tinha o rir das primaveras,
Esbate as linhas graves e severas
E cai num abandono de esquecida.

E fico, pensativa, olhando o vago...
Toma a brandura plácida de um lago
O meu rosto de monja de marfim...

E as lágrimas que choro, branca e calma,
Ninguém as vê brotar dentro da alma,
Ninguém as vê cair dentro de mim.



Homenagem à minha avó, que esta tarde nos deixou... Sentidas e belas palavras lusitanas, para alguém que um dia também veio de Portugal para fazer parte da minha história e que hoje levou consigo um enorme pedaço de mim...

domingo, 26 de junho de 2011

O problema não é você MESMO!


Duvido que exista um único ser humano que já não tenha ouvido o clássico "o problema não é você, sou eu". Desculpa manjadíssima, de gente que quer sair fora com fama de legalzinho. 

É interessante como muita mulher (homem também, por que não?) prefere ouvir isso a ter que encarar a realidade. Caraca, mas é claro que para o fulano que está a fim de evaporar o problema É você! Me parece lógico que se não fosse, neguinho não vazava, né? Mas, veja bem, isso é o que se passa na cabeça DELE. É para ELE (não para o universo) que você passou a ser um problema, simplesmente porque não está mais a fim, seja lá pela razão que for. 

Para muitas mulheres homem ruim é aquele que abre o jogo logo de cara e acaba com a esperança de primeira, como se arrancasse um esparadrapo da ferida numa única puxada: "Não quero mais saber de você, cacete!". Já o "bonzinho"... Ah, o bonzinho é cheio de justificativas!... Vai saindo pela tangente cheio de gentileza e fazendo a maior questão de exaltar suas qualidades, reafirmando incansavelmente como você é maravilhosa e que qualquer homem (menos ele, of course) iria te amar, blá, blá, blá... Tá vendo? É por isso que ele diz que o problema é ele, não você. Entendeu agora? Nem eu. 

Tem também o lance da brochada. Já vi mulher se descabelando na tentativa de encontrar explicação para aquela transa que prometia mundos e fundos, mas não deu (mesmo, mesmo) em nada. Aí a neurótica não sossega, quer porque quer saber onde foi que errou. Ora, se o sovaco não estava cabeludo, a perseguida estava em dia, aquela carçola-furada-de-elástico-frouxo ficou na gaveta, então estava tudo certo, não é não? Simplesmente o parceiro é que não estava com a cabeça (entenda como quiser) no lugar e momento certo.  

Nesse mundo SEMPRE tem alguém que gosta (ou vai gostar) da gente do jeito que a gente é. E tudo rola numa boa, sem crise existencial. Quando não acontece assim, é porque não tinha que ser, pronto e acabou.

O jeito é balançar os ombrinhos e fazer a fila andar. Porque definitivamente o problema não é você, mas sim sua insistência em não virar a página de uma vez. Não precisa desenhar isso não, né?!


sexta-feira, 24 de junho de 2011

Eu e o fogão: inimigos mortais



Se tem uma coisa que está ficando linda na nossa nova casa é a cozinha. Não é grande, nem tão pequena, e ficou modernosa, bem equipadinha. 

Aí o japa, outro dia, incomodado com meus cuidados extremos na decoração desse espaço, tripudiou:

- Não sei pra que tanta preocupação, você não cozinha mesmo!

Hum, me ferveu o sangue!... Calúnia! Injúria! Difamação!!! Uma vez por semana tô lá, firme (não?) e forte (não também?...) na beirada do fogão. E quem vê o rapaz há de concordar comigo: aquela barriguinha coberta por camisa no melhor estilo "o defunto era menor" comprova que ele está a anos-luz da inanição.

Mas quer saber de uma coisa? É isso aí mesmo, ODEIO COZINHAR!!! 

Às vezes até me empolgo e começo bem, mas antes mesmo de chegar à metade do preparado já me sinto bem arrependida. Começa pelos odores. Caramba, alho e cebola impregnam até na aura do meu ser! Gordura, então... Fico mais besuntada do que mulata de escola de samba (opa, nada de achar que tô dizendo que mulata de escola de samba é gordurenta, tá? É só por causa daquele óleo que usa pra ficar brilhosa e munita). 

Coisa horrível de fazer é saladinha de folhas, especialmente de agrião e rúcula. Meu Deus do céu, o que que é aquilo? Talo, talo e mais talo. Você lava um saco de 50 kg pra sobrar meia dúzia de folhinhas tenras na saladeira. Por isso é que sou a maior adepta da "feira limpa" (se bem que não confio muito nas verduras que já vêm lavadas e embaladas).  

E massa (de sovar), então? A gente enfia as mãos na molengueira toda e aquilo gruda num tanto, que a situação fica irremediável. Não dá pra pegar o saco de farinha, impossível abrir a torneira e limpar a porcalhada, a pessoa perde o rumo!... Tsc. Inviável. Muito inviável. 

Assado é sinônimo de escravidão. Você bota a coisa no forno e não pode nem piscar mais. Encontrar o ponto exato é problema de física quântica, tamanha a complexidade da ação. Diante dos seus olhos a coisa desanda, é um absurdo. Passa o maior tempão e o treco continua cru. Mas experimente virar as costas por um segundo e veja o que acontece. Não é possível, na minha cozinha tem um saci-pererê que se arrebenta de rir dos meus desastres culinários, só pode!

Isso tudo sem contar a trabalheira que dá deixar tudo em ordem, antes (sou daquelas que só cozinham se houver uma separação prévia de ingredientes), durante (também sou daquelas que vão lavando toda a louça enquanto cozinham) e depois (não suporto cozinha bagunçada).

E sabe o que é realmente muito estranho? É que mesmo fazendo com tanta má vontade, minha comida, por incrível que pareça, é boa. Faço um feijão sensacional, modéstia à parte. 

Não me orgulho de ser assim não. Penso que comida é algo que exige carinho e dedicação no preparo, afinal, essa é uma energia que a gente manda pra dentro, né? Isso me lembrou, inclusive, de um filme mexicano que adoro, "Como Água para Chocolate", onde a protagonista Tita transfere para os alimentos que prepara - e consequentemente para quem os come - todas as suas emoções. Filme lindíssimo, vale a pena ver. 

Mas o que se há de fazer? Como diz minha amiga Rose, do topo de sua sabedoria tibetana, "a pessoa é para o que nasce" (título de outro filme, brasileiro, bem bacana também). E definitivamente não nasci para ser sequer uma simples cozinheira, quanto menos uma chef lapidada no Le Cordon Bleu de Parri. Ulalaaaa!

Ilustração: Tiago Hoisel (espetacular!)


domingo, 19 de junho de 2011

Infidelidade virtual


Às vezes me pego pensando em como seria se o japa, de repente, passasse a curtir umas circuladas pelos sites de relacionamento. Confesso que fico aliviada ao ver sua total falta de habilidade até para enviar um simples e-mail, muito embora o rapaz não vá para um plantão sem que esteja com o respectivo notebook embaixo do subaco (diz que é pra assistir futebol on-line). Ops... Um ligeiro cheirinho de chifre torrado passou por aqui...

Mas e aí, será que puladinha de cerca virtual indica infidelidade? Pensemos com calma sobre o assunto.

Suponhamos (supositoriamente, mesmo, ok?) que eu esteja desinteressadamente usando o computador do japa e, sem querer, escorrego para "Meus -dele!- documentos". Não que eu seja curiosa (longe disso), mas resolvo dar uma passadinha de olho pelas imediações e encontro uma pasta de contatos com alguns telefones. Do irmão (certo). Da mãe (beleza). Da Bebel (a vizinha pivetona, deixa pra lá, vai...). Da Marina (uma gostosa que já esteve a fim dele... tá complicando...). E de uma tal Bia (que jamais ouvi falar na vida!...), junto com o endereço de uma sala de bate-papo. Japadunsifernu!!! (>_<)

Cientistas de Sverdlovsk comprovaram que diante desse dilema, apenas duas possíveis explicações passam pela cabeça de uma tonta xereta: uma absurdamente ingênua e outra terrivelmente perturbadora. 

A ingênua: ele é educadérrimo e não teve coragem de ignorar a mulherzinha, que praticamente implorou por sua atenção. Claro que jamais pensou em encontrá-la de verdade. Ô!... Olha a mulher que ele tem em casa!...

A perturbadora: ele fica galinhando na Internet, conheceu a piranha, pegou o telefone dela, encontrou com a bruaca de verdade e chegou em casa acabadaço, dizendo que estava no plantão. E eu acreditei porque, além de ser burra, ainda acho que ele fica se matando de trabalhar.

O que fazer para resolver o babado?

Hipóteses à parte, se desconfiar do parceiro e perguntar a ele o que se passa, é claro que vai ouvir a explicação absurdamente ingênua. E corre o sério risco de ser avacalhada, já que conseguiu a informação sobre a galinácea de forma praticamente ilícita por estar xeretando nos documentos dele (por documentos, nesse caso, entenda-se computador mesmo, ok?). Se não perguntar, será irremediavelmente assombrada pela possibilidade terrivelmente perturbadora. 

A grande verdade, porém, é que de concreto mesmo, só há o telefone da mulher anotado por ele. E tecnicamente pegar um telefone não configura infidelidade (infidelidade é pegar outras coisas). É compreensível que pensar sobre a intenção que ele teve ao fazer isso é o que incomoda, porque produz uma possibilidade de traição, que pode ou não se concretizar. Mas, de qualquer maneira, a princípio nada aconteceu de fato.

Tá certo que navegando por aí a gente vai ficando expert em detectar galinhagem, especialmente masculina e, mais especialmente ainda, de homem comprometido. Isso é até divertido de observar quando a dona encrenca dá o ar da graça, pega o traste cascarça na mão e obriga o delinquente a se desfazer de todas amiguinhas que conseguiu no universo virtual, coisa que ele faz rapidinho, sem titubear (porque sabe que é só encher a patroa de chamego, dar um tempinho básico, que logo poderá voltar à safadeza). 

Existe também o outro lado da moeda, que precisa ser levado em conta. Às vezes essa mesma mulher desconfiadíssima também tem amiguinho virtual dando mole pra ela, que não alimenta, mas ao mesmo tempo não corta o barato de vez. E como nada aconteceu realmente entre eles, é possível afirmar que trata-se apenas de uma inofensiva galinhagem virtual também, né não? Ela sabe disso muito bem, mas como será que seu parceiro interpretaria a situação?

Por isso, acho que o negócio é não esquentar a cabeça (já falei, chifre torrado fede). Se o relacionamento é construído com um grau de confiança bacana, onde há segurança e as regras do jogo estejam bem claras, se preocupar com hipóteses é uma tremenda bobagem.


Ilustração de Ceó Pontual