sexta-feira, 17 de junho de 2011

Marcas do tempo



Minha avó tem 97 anos e está nos deixando. De algum tempo pra cá a gente vê claramente a vida se esvaindo dela, um pouquinho mais a cada instante. E é assim que essa existência, como uma vela que já está chegando ao fim, tem sua chama drasticamente diminuída, reduzida a quase nada. Há dois dias hospitalizada, seu estado é extremamente crítico.

Sinto uma profunda dor quando observo a velhice. Dificilmente as pessoas conseguem dimensionar o tanto que esse processo é sofrido. Não apenas por aspectos físicos, com a perda da beleza e da vitalidade, ou das limitações que se acentuam irremediavelmente e inviabilizam coisas elementares como se movimentar ou usar plenamente todos os sentidos. Se já não fosse suficiente a dor que isso tudo provoca no corpo, a alma de uma pessoa idosa também vai ficando mortalmente machucada.

Viver quase 100 anos implica em ver quase todas as pessoas que você mais amou na vida partirem. É sentir inúmeras vezes a dor insuportável da perda ao presenciar a morte de companheiros, de filhos, irmãos, amigos... É constatar, de repente, que só sobrou você. Não há mais com quem partilhar uma lembrança, conversar sobre afinidades, dividir os mesmos interesses.

As pessoas costumam olhar para os velhos como se eles jamais tivessem sido jovens um dia. Riem, se incomodam, ignoram. Não se dão conta de que, como elas, essas pessoas também já foram crianças, adolescentes e adultos produtivos. Que brincaram, se apaixonaram, dançaram, riram, sonharam, realizaram, viveram... E que trazem dentro de si um amontoado de experiências dignas de respeito e, sobretudo, de enorme admiração.

Houve uma passagem na novela "Mulheres Apaixonadas" (2003), de Manoel Carlos, que ficou bem gravada na minha memória. Uma personagem que maltratou tremendamente os avós ao longo da trama, de repente senta-se ao lado de uma senhora num banco da rua. A senhora desconhecida, com muita delicadeza, segura na mão da moça e diz a ela: "Minhas mãos jamais serão como as suas novamente... Mas as suas serão como as minhas."

Isso fica muito evidente no belíssimo trabalho desenvolvido pelo fotógrafo Horacio Guzman, com a série de imagens Timeless Memories, onde fotografou as mãos envelhecidas de pessoas junto com imagens delas mesmas na juventude. É de uma sensibilidade que emociona.

Hoje, com a alma sangrando por entender que está chegando o momento de me despedir da minha avó, pessoa de importância absolutamente fundamental na minha vida, termino este post com uma das imagens captadas por Horacio Guzman. 


É isso, ninguém nasce velho.

Mãos de Maria Rosa, 83 anos, com 18 anos na foto

13 comentários:

  1. É....por mais que saibamos que noventa e sete anos é " tempo pra caramba", sentimos que a dor da despsdida não se tem como fugir dela!No nosso caso....temos que lembrar de muitas histórias....e como temos histórias....que dariam para publicar muitos livros!!Como por exemplo "A internação de tanto comer jaca";deliciosos sonhos...carne louca...arroz com feijão ...hum....delícia

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  2. Tânia...percebeu ???tô sem óculos.Se fosse a vó, com certeza na minha idade, estaria enxergando muito bem!!!!Corrige a palavra "despedida" que postei aí em cima!!!Bjs

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  3. Simone,

    Veja o poder dessa Dona Conceição, a mulher de borracha: te fez vir pela primeira vez aqui, deixar um pouco de você. Ô velhinha porreta!

    E tem razão. Há um tantão de coisas boas pra lembrar. Aliás, acho que isso é o que dói na hora de se despedir. Não consigo me lembrar de absolutamente nada que não tenha sido tão bom. C'est la vie!...

    Tem mais razão ainda quando diz que na sua idade ela enxergava bem melhor que você. Sem óculos e SEM CELULITE. Pode?! kkkk!

    Que bom te ver aqui. É isso, juntas pro que der e vier.

    Beijoca!

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  4. Maria José Moura17 de junho de 2011 16:48

    Muito lindo o trabalho do fotógrafo.
    Sua postagem sugere uma reflexão profunda sobre como estamos a cuidar, ou não, dos nossos pais e avós e também sobre o que se passará conosco, quando chegar a nossa vez.
    Bjs

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  5. Olá menina
    Comovente seu relato. Sou sempre assim, não sei muito o que dizer nessas situações. Lamento.
    Bjux

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  6. Pois é... Nem dá pra acrescentar nada, você disse tudo. Mas, com certeza, tem um pessoal bem bacana esperando por ela lá do outro lado. Aqui,como a Simone disse, vamos relembrar as histórias, os cheiros...em particular do perfume "madeiras do oriente", que ela deixava em cima da cômoda,lembra?

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  7. Passei, vi, gostei, vou ficar. ;)

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  8. Faço das palavras do Wanderley as minhas. Nunca sei muito o que dizer nessas horas.

    Meus sentimentos. Sei muito bem o que está sentindo.

    Lamento trazer essa informação em momento de dor, mas gostaria de informar que meu blog encontra-se em manutenção até segunda feira, 20/06, às19h, quando farei o post de aniversário das paulinisses. Aviso pra que não entenda, caso visite o blog até esse período.

    Bjs!

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  9. MARIA JOSÉ: em geral não paramos para pensar no assunto, né? Mas, de fato, sempre vale a pena se colocar no lugar do outro, isso é o que nos dá uma noção mínima do sofrimento alheio.

    RODRIGO: valeu!

    WANDERLEY: é complicado mesmo, nem há o que dizer diante dessa realidade, né?

    ELAINE: ah, o perfume!... Esse será eterno na memória!

    SOFIA: que bom, fique mesmo!

    ERALDO: te ver por aqui já é um conforto, querido, obrigada! Ah, anda fazendo reformas, é? Depois vou lá fuçar e dar meus pitacos, me aguarde!

    BEIJOCAS PRA TODOS!

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  10. Eraldo,

    Como falei na minha postagem atual, NÃO SOU CURIOSA...

    Mas não resisti e fui tentar xeretar no seu blog. Dei com a cara na porta.

    Ainda bem que me avisou que estava inacessível por enquanto (fui conferir, pode?!), porque se não soubesse eu ia te xingar. kkkkkkkk!!!

    Beijoca, querido! Vamos ver o que é que vai aprontar.

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  11. Tânia.
    Belíssimo o seu testo e...quanta sensibilidade!
    Fiz uma visitina na sua página do facebook.
    Parabéns!.
    Terno abraço.

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  12. Tânia.
    Belíssimo o seu testo e...quanta sensibilidade!
    Fiz uma visitina na sua página do facebook.
    Parabéns!.
    Terno abraço.

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