Ontem, num papo com meu filho, surgiu a seguinte questão: é possível se tornar amigo de ex? Nem precisei pensar muito pra chegar a uma conclusão. Oras, mas é claro que... depende. Pode ser que sim, pode ser que não... Talvez, quem sabe? Tá certo, trata-se de uma conclusão um tanto quanto inconclusiva da minha parte, mas explico melhor. Se ainda houver disposição e bem querer entre ambos, acho perfeitamente viável (e muito interessante) se transformar em amigo de ex.
É importante observar, no entanto, que uma amizade, pra ser verdadeira, exige o cumprimento de alguns requisitos básicos. Porque a gente pode se tornar ex-mulher, ex-namorada, ex-amante, ex-ficante, mas não dá pra se transformar em ex-amiga.
Ser amigo significa estar inserido num grupo muito seleto de pessoas com as quais o outro convive. É estar no mesmo patamar de pessoas que nunca se tornarão ex, haja o que houver. Não existe ex-pai, ex-mãe, ex-filho, por exemplo. Nem mesmo a morte modifica isso.
Ser amigo, mesmo, implica em conseguir superar divergências, sabendo que não se resolve perrengues com um simples pé na bunda. Quem acha que, de repente, pode se tornar ex-amigo é porque jamais foi amigo algum dia, apenas impôs ao outro uma realidade fraudulenta. E vamos combinar que ninguém merece isso, né?
É aí que está a condicionalidade de se tornar ou não amigo de ex, na minha opinião. É preciso que o tempo se encarregue de resolver conflitos, apagar mágoas, principalmente se o rompimento não aconteceu consensualmente. Entre pessoas maduras, quando a paixão acaba, a tragédia se minimiza com o tempo. Ao contrário de uma amizade, acho concebível que esse tipo de relação tenha um fim. Porque, em geral, um envolvimento romântico está diretamente ligado a dimensões mais superficiais e passageiras, como atração física ou desejo sexual. É como tão bem colocou Vinícius: "que o amor não seja imortal, posto que é chama, mas que seja infinito enquanto dure". Então, se apesar do rompimento ainda exista identificação entre ambos, acho perfeitamente possível que a relação se transforme numa amizade bacana.
Para reconstruir um relacionamento em outras bases é imprescindível superar todas expectativas e frustrações, daí a importância de se dar tempo ao tempo. É preciso que a atração dê lugar a outras afinidades e que o sentimento de posse, natural num envolvimento romântico, deixe de existir também. Porque se não houver sintonia de objetivos, se ambos não estiverem dispostos a deixar no passado as lembranças dos bons ou maus momentos que partilharam como casal (por mais que tenham sido espetaculares ou terríveis), o risco de novas decepções é enorme. E de passar por grandes sufocos também...
Costumo dizer que sou a maior amiga de ex que conheço e é verdade. Posso reencontrá-los e me divertir a valer com eles ou apoiá-los no que for preciso, sem levar em conta que um dia já tivemos outro tipo de envolvimento. E isso acontece porque depois de um tempo prefiro zerar o contador e reconstruir tudo novamente, de um outro modo. Afinal, se num determinado momento deixei que alguém fizesse parte da minha vida, é porque achei que essa pessoa valia a pena. Então, por que não permitir que esse alguém continue presente, ainda que seja de outra maneira? Não, não incorporei a Madre Tereza de Calcutá. Ao contrário, meu negócio é lucrar, sempre. E só dá pra ser assim se eu somar e não subtrair, né?






