sábado, 12 de julho de 2008

Odeio que subestimem minha inteligência!

A convivência é uma arte, que envolve bem mais que sorrisos, atitudes politicamente corretas, festa e alegria. Conviver exige, acima de tudo, tolerância com os defeitos e vícios alheios. Tolerância com as inconstâncias, com a imprevisibilidade, com altos e baixos. Ser tolerante é perceber que as pessoas não são felizes 24 horas por dia, que elas têm problemas, que acordam de mau humor, que têm sono, se cansam às vezes, precisam de silêncio, de ficar sozinhas. E é difícil reconhecer isso nas pessoas. Mesmo sabendo que a gente também é assim. Me considero uma pessoa até bem flexível. Compreendo que por covardia há pessoas que são hipócritas e até falsas. Interpreto o falso-moralismo como mera falta de recursos intelectuais para se impor diante de padrões convenientemente estabelecidos. Entendo as neuroses, manias, atrevimentos, estupidez, inveja, pessimismo e até mesmo o oportunismo. Quem quiser agir assim comigo, fique à vontade, podemos tentar chegar a um consenso. Só não suporto e nem admito que subestimem minha inteligência.
"Cazuza que me desculpe, mas mentiras sinceras não me interessam... Raspas e restos também não."
Odeio desculpas simplórias, bobas e recorrentes. É horrível quando, apesar de evidências bem claras, a outra pessoa supõe que você não tem a mínima percepção dos fatos. Que fique bem claro, não falo de situações hipotéticas, onde a gente procura cabelo em ovo... Falo sobre coisas escancaradas, que qualquer um pode ver. O triste é que a mentira óbvia transforma automaticamente o interlocutor num perfeito idiota, ainda que seja dita com a melhor das intenções. Aguento firme uma resposta sincera, mas não suporto que subestimem minha capacidade de ver a realidade ou façam pouco caso da importância que dou às coisas. Só o que quero é ver sinceridade em coisas simples. Não espero a opinião franca, expressa e filosófica do que as pessoas pensam sobre o que faço ou deixo de fazer. Quero sinceridade ao dizer: "Olha, eu acho que seu cabelo não tá bom". Ou então, "viu, se você não se importa, hoje estou a fim de ficar na minha". Vou mais além: há casos em que o melhor é nem dizer nada, simples assim. A dúvida imposta pela omissão é menos ofensiva do que a certeza de que estou sendo tratada como uma alienada. Quer um exemplo triste de falta de sinceridade mútua? Tem um feriado chegando e bate aquela vontade de ir à praia. Aí, repentinamente e depois de milênios, você se aproxima daquele amigo que tem uma bela casa em Angra dos Reis... Sem mais nem menos, você começa a ligar, mandar e-mails, coisas que façam você parecer uma pessoa legal. Resposta que você vai ouvir quando se convidar pra casa de veraneio do cara: "Claro que você pode ir pra Angra com a gente!". Resposta que você deveria ouvir: "Fulano, a casa vai estar lotada de amigos meus, não tem mais espaço". Daí, se você for inteligente, vai sacar que a casa vai estar lotada de amigos e você , por ser um amigo da onça, não está incluído. Não seria muito melhor se ambos fossem mais objetivos? Tenho uma amiga que é ótima nisso e foi a partir do comportamento dela que passei a perceber que ser sincero é muito mais simples e menos doído do que se imagina. Podemos passar anos sem nos encontrar ou bater um papo, mas ela não titubeia em ligar e ser direta se precisar de algo. Não se justifica pelo afastamento, nem floreia a conversa, vai direto ao ponto. Por isso, sempre que nos reencontramos sem nenhum motivo especial, sei que ali tenho uma amiga de verdade, alguém que entrou na minha vida pra ficar. Que respeita a minha compreensão de que se esteve afastada, é porque teve seus motivos pra isso, entre eles, a vontade de estar com outras pessoas e não comigo em determinados momentos. Isso é absolutamente normal e acontece com todo mundo, mas poucos reconhecem. Penso que um pequeno gesto de sinceridade é o mínimo que se espera de amigos tão carinhosamente escolhidos. Então, dispenso desculpas esfarrapadas. Sou suficientemente forte pra suportar uma rejeição e seguir em frente, exercendo o direito de conviver só com quem vale a pena pra mim. Cazuza que me desculpe, mas mentiras sinceras não me interessam... Raspas e restos também não.

6 comentários:

  1. A gente constrói uma imagem do outro e sempre esperamos a verdade dele. Quando surge uma mentira esfarrapada, a imagem é alterada e isso te afeta. Você percebe que o outro é capaz de mentir e que você não vale tanto assim para ele. Infelizmente essa é uma decepção rotineira. Bj!

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  2. Concordo com tudo! Odeio mentiras, e desconsidero ainda mais quem faz uso delas! Gosto da verdade, e da sinceridade, não é à toa que faço disto uma meta, sempre dizer o que penso. No entanto, isso é seguido por poucos, que vivem se decepcionando por verem as pessoas que estão à nossa volta, dificilmente agindo assim, é realmente deprimente se sentir idiota, se sentir enganado, algo que não desejo à ninguém, pois quem se sentiu assim, sabe como é, só torço pra que os mentirosos não provem do próprio veneno, concerteza se arrependeriam, e talvez, até mudariam algumas atitudes, mas não custa sonhar, quem sabe um dia, né!

    Beijão ;*

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  3. Adorei esse post, porque com desculpa furada, na prática, quem acaba tomando a cacetada é você, obrigada a agüentar manobras verbais ridículas. Até me atrevo a listar algumas frases feitas, usadas por quem quer se livrar de um enrosco amoroso:


    "Aonde vamos, amor?"

    Leia-se: qual o motel mais próximo? Nenhum homem delega assim de mão beijada o destino de um programa. O instinto masculino não sabe sequer lidar com uma ameaça desse tipo. Não se deixe embasbacar pelo carinho fora de medida e acenda o alerta quando ouvir esses apelidinhos melosos, principalmente no começo do namoro. O papo mole só serve - pensam eles! - para despistar intenções precipitadas. Use isso a seu favor e fuja das ciladas.


    "O problema não é você, sou eu"

    Sortuda aquela que nunca precisou se contentar com essa desculpa esfarrapada no final de um relacionamento. Claro que tem boi na linha e, por algum motivo, você (ou a sua companhia) deixou de agradar. O problema é que os homens normalmente são tão inseguros que temem mudar de idéia já no dia seguinte e querem deixar as portas abertas caso precisem pedir arrego. O jeito é levar a conversa fiada ao pé da letra e dar um belo chute no traseiro do infeliz, afinal o problema realmente está com ele, que não consegue sequer falar o que pensa.


    "Você é a mulher que todo homem gostaria de ter"

    Aqui faltou um adjetivo: você é a mulher que todo homem "bundão" gostaria de ter, como eles pensam de fato. Seja porque você não é nenhuma Juliana Paes, seja porque o manual de Amélia não cabe na sua estante, não importa: desapareça da frente desse maníaco controlador antes que ele resolva colocar uma coleira no seu pescoço, enquanto sai por aí galinhando em outras freguesias.


    "A bateria do celular acabou"

    Uma das manobras preferidas dos homens que não atendem o celular, mas querem manter você no cabresto (nem que seja apenas para alimentar o ego insaciável, viciado em elogios e rasgação de seda). Se a bateria realmente tivesse acabado e ele quisesse mesmo manter contato, teria retornado a ligação, para isso servem as binas. Portanto não caia mais nessa balela, disfarce infame para o simples "não atendi porque tinha coisa melhor para fazer do que perder tempo com quem já peguei".


    "Você sumiu, eu já estava com saudade"

    Escapada estratégica dos pilantras de plantão. Depois de sumir sem mais nem menos, ele encontra você por acaso e vem com esse papinho. Sim, pa-pi-nho. Sem saber o que falar, nove entre dez (o décimo engasgou com a própria saliva) homens decidem culpar você pela falta de contato. Por trás do comentário cínico, a frase que de fato ele tem vontade de falar é: "Com tanto lugar para ir, a gente tinha que escolher justo o mesmo?" Responda à altura e, com a cara mais blasé do mundo, solte: "Jura? Nem notei que você tinha sumido..."


    "Te ligo depois"

    Prima de primeiro grau da bateria que, misteriosamente, acaba bem na hora que você resolve chamá-lo pelo celular, a célebre "te ligo depois" é passa fora dos mais manjados na praça. Aqui, não tem muito segredo e, a rigor, a frase nem tem duplo sentido: ele vai ligar depois, mesmo. Só resta saber depois de quê: pode ser depois da próxima encarnação, depois de ficar bêbado e não pegar ninguém, depois que esgotar todas as opções da agenda... Se ele fosse sincero, diria: "Tenho coisa mais interessante para fazer. Mas quando o tédio tomar conta de mim, quem sabe a gente se fala."

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  4. Lilian Guimarães14 de julho de 2008 09:31

    Os tempos mudam. A tecnologia dos pretextos evolui. A desculpa ganha roupa nova. Mas dificilmente muda a aparência. Desculpa que é desculpa sempre tem jeito de esfarrapada!

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  5. Concordo plenamente! E a Cristiane comentou muitíssimo bem! Como é duro você conviver com uma pessoa e depois, sem mais nem menos, o babaca sumir por vários dias, retornando com as desculpas mais esfarrapadas do mundo, tentando te fazer passar por maluca! Afinal, se sumiu era porque estava trabalhando muito e blá-blá(como diria uma pessoa que conheci)! Tudo seria tão mais simples se existisse um mínimo de sinceridade!Pura questão de respeito!!! Também odeio ser subestimada!!! Mandou bem,Tânia! Como sempre!!! Basta de mentiras piedosas! A verdade, por mais horrível que possa parecer num primeiro momento, sempre é a melhor solução. No final das contas é como a tal frase diz: "ISSO TAMBÉM VAI PASSAR"

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  6. Cara amiga.

    É uma delícia ler seus textos, instigantes e desafiadores. O de hoje me fez refletir sobre coisas simples e, ao mesmo tempo, tão complexas.
    Demorarei vários dias, lendo e relendo seu texto e tentando me lembrar de onde vinha a sensação de concordância e reconhecimento que sentia nele. Por fim, lembrei-me da máxima de Nietzsche: “O quanto de verdade suporta um espírito?”
    Essa parece ser a questão central do seu texto, não é? Você se posiciona de frente para a vida, de forma a poder encará-la e resolver o que realmente quer dela. Viver não é nada fácil, é claro. Mas o viver tem um lado exuberante, para os que sabem vivê-lo, para os que não fogem da vida. Sua opção de encarar a verdade é um SIM à vida, para o que ela tem de bom e de pior.
    Infelizmente a maior parte das pessoas não tem essa coragem. A maioria parte das pessoas prefere a mentira: preferem se refugiar nos ideais que criaram para si mesmas e de si mesmas. Dessa forma, nessas pessoas, tudo passa a ser criação, invenção e fantasia, especialmente a maneira como elas vêem a si mesmas.
    Pobres desses espíritos que aceitam viver nesse limo da vida. Você tem razão. Podemos e devemos exercer o direito de conviver só com quem vale à pena. Chega de mentiras e de pessoas que nos entregam raspas e restos.
    Voltando novamente a Nietzsche: “Não há nada que um ser humano conheça menos que a si próprio.” Mas entre essa constatação, tão verdadeira, e a opção pela mentira, hipocrisia e falsidade, vai uma longa distância que poucas mentes têm a coragem de enfrentar.
    Um brinde à convivência artística, rica de sentimentos e trocas que envolvam toda magnitude, grandeza e misérias da vida.

    Abraços.
    Reinaldo Scalzaretto

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