domingo, 8 de novembro de 2009

Sociedade hipócrita, machista, nojenta!

Tô bege, tô rosa, tô de bolinha! 


Hoje fiquei de boca aberta diante do que li na Folha de São Paulo: "Uniban expulsa aluna que foi à aula com vestido curto". Sob alegação de que a moça é reincidente na maneira "inadequada" de se trajar e também porque com sua exposição, traduzindo para o português claro, "estava querendo" (adivinha o quê), a mais simplória - e incompetentíssima - solução encontrada foi limpar a área, atribuindo toda responsabilidade à própria vítima e promovendo um revoltante linchamento moral. Pra quem não viu o que houve, dá uma olhada AQUI


Se eu já tinha ficado catatônica diante da negligência da universidade quando ocorreu o episódio, agora, com esse desfecho, vejo que a humanidade está irremediavelmente perdida. 


Sem discutir a atitude da moça, que na minha opinião pecou sim, mas na escolha do vestido - horrendo - o grande absurdo disso tudo foi o desdobramento que uma simples roupa causou. Não interessa se ela quer aparecer ou não, se não tem o comportamento "ideal", enfim, nada justifica a atrocidade que foi cometida. 


Meu Deus, mas onde é que nós estamos? Em que época vivemos? Como é possível aceitar normalmente que um absurdo dessa proporção aconteça dentro de uma instituição de ensino, em pleno século 21? Pior: numa universidade, onde a prática da tolerância deve ser uma condição elementar, por tratar-se de um lugar que reúne pessoas de todo tipo, exclusivamente ADULTAS, com pontos de vista e crenças distintas, enfim, com características sócio-culturais variadíssimas. 


Olha, acredito que os pobres estudantes que foram dizimados pela ditadura, sofrendo as mais cruéis torturas e desaparecendo da face da terra apenas pelo justo desejo de expressarem livremente seus ideais políticos estejam se revirando na tumba nesse momento. Com o triste papelão que aprontou, essa moçadinha da Uniban também entrou pra história, infelizmente como vergonha nacional. 


Sociedade hipócrita e machista. Nojenta. Imunda. 


Estou tremendamente chocada com a formação que o pessoal da minha geração está oferecendo a seus filhos. Tenho a impressão de que quanto maior o acesso à informação, mais retrógradas as pessoas estão ficando.

Me espanta demais ver até as próprias mulheres condenando a tal moça do vestido curto. Infelizmente, se a gente considerar que a educação dos filhos ainda hoje fica quase que inteiramente sob a responsabilidade das mães, as perspectivas de um futuro melhor e menos machista são péssimas.

Menininhas ainda são criadas para se tornarem mocinhas de fino trato, boas para casar. E menininhos, desde a mais tenra idade, são treinados para usar e abusar do mulheril, desde que, obviamente, um dia sosseguem o pinto na companhia de uma mulherzinha "decente". Que orgulho do Joãozinho, que com apenas três aninhos já tem namorada na escolinha! Que beleza, o molequinho é danado, já beijou um montão! Tá certo, é macho mesmo. Já a Mariazinha, que é a namoradinha que o Joãozinho andou catando, tem um foguinho no rabo de assustar. E não é que essa menina é uma galinha?

Isso também me fez lembrar o que uma amiga falou dia desses, rebatendo o que tão orgulhosamente um outro amigo comentou, ao enaltecer a "ferramenta" do filho caçula. Ela lembrou muito bem: falar que o filho é dono de um "bilauzão" daqueles é lindo. Impossível é ver alguém dizendo que a filha tem uma "perseguida" de dar inveja. 


Falar baixo, se comportar com delicadeza e ser "decente" são requisitos básicos na educação das mulheres. Sentar de perna aberta? Jamé!!!!!! Ao contrário, homens logo aprendem que não há limites pra satisfação das suas necessidades: coçam o saco a qualquer hora, escarram, fazem xixi em qualquer canto. Como se as mulheres não sentissem coceira, não ficassem cheias de catarro e nunca precisassem esvaziar o reservatório.

Muita gente ainda considera uma obrigação da mulher estar linda, perfumada e inteiramente disponível à espera do maridão, que pode chegar cecezento, mau-humorado e cansadérrimo do trabalho. Como se o dia dela também não fosse desgastante, especialmente considerando a normalíssima dupla jornada que muitas cumprem hoje em dia.

Quer um exemplo terrível? Esses programas de transformação de mulheres, que em geral estão o pó da rabiola por causa de relações desgastadas. Por isso vivem com a auto-estima no dedão do pé, ficam feias, mal cuidadas, com visual lamentável. E dá-lhe tratamento pra tirar gordura daqui, preencher ali, esticar acolá. Como resultado final se apresenta uma mulher novinha em folha (por fora, claro), prontinha pra agradar o benzão. Ele, por sua vez, recebe a "nova" mulher com um sorrisão, satisfeitíssimo. Agora sim, tudo está como ELE merece. No infeliz, nada de mudança. Vai continuar mal acabado e dividindo com a mulherzinha repaginada a mesma vidinha insatisfatória de sempre. A visão machista ofusca a necessidade que ambos têm de conhecer melhor a si mesmos e resolver os problemas internos que cada um apresenta, a fim de que se reconstrua a relação a partir de bases sólidas de fato, não de atitudes superficiais. Enfim, esse é um assunto que dá pano pra manga e cabe em muitas outras postagens. 


Então, até a próxima!

13 comentários:

  1. É lamentável ter que conviver com esses acontecimentos.
    As pessoas se preocupam demais com a vida das outras e como se não bastasse, ficou esse péssimo exemplo da universidade.
    Talvez seja por isso que muitos não consigam emprego no final do curso ou desistem.
    Tantas coisas para se preocupar, para reivindicar no Brasil e nos deparamos com uma coisa tão ridícula.

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  2. Clap clap clap clap ckap clap !!!!Uhuuu!!!
    "Os estudantes andam sem causa há anos. Uma boa, hoje: levar a Uniban à falência"(Flávio Gomes)
    "Nunca tive isso na minha empresa, mas a partir de hoje quem estudar nessa Uniban meleca não trabalha comigo"(Flávio Gomes).
    "Fábrica de alunos da Uniban" (Luis Nassif-
    http://bit.ly/1nqs2v).
    "A UNIBAN é referência no ensino de História: Reviveu a Idade Média em pleno século XXI".
    (microcontos via twitter).
    Vai desculpando aí o Ctrl C+ Ctrl V mas é que o que eu teria a dizer é impróprio para o seu blog que é de respeito, tá? Estou muito puta! Oops, será que me deixam estudar naquela meleca? Afinal, tô "puta"!?! O texto do Luis Nassif e o do Contardo Caligaris são perfeitos! Eu consigo até entender o reacionarismo da estudantada burra que teve educação machista, mas a posição da diretoria da Uniburca...Os donos são de extrema direita, sabia? Do naipe de Paulo Maluf e corja. Nojo nojo nojo...

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  3. Lamentável estar ocorrendo essa situação.Pior de tudo é que isso virou assunto nacional, mas ninguém faz nada em prol da moça expulsa da instituição.Fica mais fácil jogar pedras do que estender a mão.
    Abraços,

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  4. HELENA: lembrou muito bem, é uma tristeza ver tanta gente se preocupando com a vida dos outros, como se também não tivessem um belo telhadinho de vidro. E tem toda razão: dos estudantes e das instituições de ensino espera-se posturas relevantes, que contribuam para a melhoria dos gravíssimos problemas que o país apresenta, não uma palhaçada lamentável como essa.

    ROSE: Minha filha, diante dessa atrocidade você acha que dá pra poupar alguém? Desça a lenha à vontade! Afinal, me parece que ser prudente é desnecessário. A moda agora é falar (e fazer) literalmente o que se pensa, sem a menor preocupação com consequências. Viva a anarquia! Eeeeeba! Pois é, sinto muito, mas você será barrada na Uniban... Ainda mais com essa cabeleira assassina. Bom, se eu fosse o segurança não te deixava entrar não! kkkkkkkk!!!!!

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  5. Oi Heli!

    Que bom te ver por aqui. Olha, de certa forma, creio que a Uniban acabou amparando a moça por um bom tempo. Já imaginou o quanto ficou valorizada a indenização que ela pode pedir a partir de agora por causa dessa decisão desastrada que eles tomaram? Infelizmente nesse país é assim que tudo funciona agora. Uma inversão de valores absurda, onde tudo se mistura. Sei lá onde é que vamos parar!

    Beijoca!

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  6. Ééééé....Diante da atitude tomada pela faculdade só me resta pensar que acabaram criando um precedente no mundo jurídico, ou seja, de agora em diante quando houver um caso de estupro a vítima será julgada e não o delinquente! Afinal, vai saber se a mulher não estava usando roupas provocantes ou se comportando de maneira inadequada? Ainda é capaz do estuprador pedir uma indenização por danos morais! Quem nasceu na década de sessenta e viu os horrores da ditadura e do autoritarismo (ainda que à distância), deve estar totalmente chocado com tamanho retrocesso!!! Tanto sutiã queimado...PRA QUÊ???JU

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  7. Com olhos arregalados assistimos pela televisão as manifestações fundamentalistas que aterrorizam o mundo. Mas aí eu pergunto: a intolerância que aconteceu com essa garota não é a mesma coisa? A humanidade vai de mal a pior.

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  8. ELAINE: É mesmo. Se a atacada não estiver de banho tomado, pernas depiladas e usando perfume francês é bem capaz do estuprador exigir indenização. E se o juíz se formou em Direito pela Uniban, certamente o tarado ganha a causa na hora. kkkkkkkkk!!!!!! Pois é... Tanto sutiã queimado por nada!...

    CRISTIANE: Apoiadíssimo! Intolerância é intolerância e pronto, não importa se ela venha acompanhada de bombas ou de comportamentos lamentáveis. A crueldade e ignorância, sem dúvida, são idênticas.

    BEIJOCAS!

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  9. Tânia,
    Eu tinha visto pela TV., e assim seguem as falsas ideologias, hipócritas moralidades, preconceitos, e a sociedade ao invés de avançar, anda para trás. Houve sim um assédio inexplicável, uma histeria coletiva, e a menina acabou prejudicada. ney/

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  10. Este comentário foi removido pelo autor.

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  11. Deu no NY Times!!! http://is.gd/4QiS2 #ChupaUniban . Será que aumenta o valor da indenização??? Tô confusa: País do fio dental, turismo sexual e etcetera e tal? Que moral???
    Eu seria barrada pela minha cabeleira porque ela lembra algo ...talvez... cabeludo? kkkkkkkkk Viva los pelos!!!

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  12. Oi Tania,

    Esse assunto dá pano pra manga!
    É tudo que o "brasileiro" gosta, polemica e "coisas" à mostra...
    Além de ser um bom motivo pra desviar dos reais problemas do país. :-(

    Beijos e ótima semana!

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  13. Navegando pela grande rede sem rumo com a intenção de divulgar o meu blog, cheguei até você e gostei do que vi, tanto que pretendo voltar mais vezes.
    No momento estou impedida de fazer leituras muito extensas, pois a claridade da tela do computador está prejudicando um pouco a minha visão, devo tomar cuidado. Em breve resolverei esse problema. Bem, já que estou aqui aproveito para convidar a conhecer FOI DESSE JEITO QUE EU OUVI DIZER... em http://www.silnunesprof.blogspot.com
    Eu como professora e pesquisadora acredito num mundo melhor através do exercício da leitura, da reflexão e enquanto eu existir, vou lutar para que os meus ideiais não se percam. Pois o maior bem que podemos deixar para os nossos filhos é o afeto e uma boa educação. Isso faz com que ela acredite na própria capacidade, seja feliz e tenha um preparo melhor para lidar com as dificuldades da vida. Nós professores temos a faca e o queijo na mão, temos conteúdo para isso. Dá trabalho sim, mas nada paga a sensação do dever cumprido, faz bem para a alma. VAMOS TODOS JUNTOS PELA EDUCAÇÃO NA LUTA POR UM MUNDO MELHOR ! SIM, NÓS PODEMOS.
    Se gostar da minha proposta, siga-me.
    Peço que ao responder deixar sempre o link do blog, pois às vezes a mensagem entram com o link desabilitado ou como anônimo. Por causa disso fico sem ter como responder as pessoas.Os meus comentários também entram via e-mail, pois nem sempre a minha conexão me permite abrir as páginas: moro dentro de um pedacinho da Mata Atlântica, creio que mais alto que as antenas, com isso a minha dificuldade de sinal do 3G. Espero que entenda quando não puder responder. O único barulho que escuto aqui é o som dos pássaros, grilos, micos...
    Por hoje fico por aqui, Espero nos tornarmos bons amigos.
    Que a PAZ e o BEM te acompanhem sempre.
    Saudações Florestais !

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